VIII

II

UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

Este, porém, era um selvagem elegante.

Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

Ainda moço, quasi menino, estando entre marinheiro e grumete, ouvio dizer ao bailio de Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ella tem! Um dito de almirante impõe, em qualquer assumpto que seja. Acima de um oraculo está uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A delle era uma larga spatula, escura na côr; na agilidade era uma clava, nas caricias uma torquez; quebrava um seixo com um socco.

Não era casado. Não quiz ou não encontrou mulher. Naturalmente o marinheiro queria mãos de duqueza. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

Conta-se entretanto que, em Rochefort (Charente) achou elle um dia uma grisette que realisava o seu ideal. Linda moça e lindas mãos. Detrahia e arranhava. Affrontal-a era perigoso. As suas unhas, extremamente asseiadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessario. Tão bellas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquelle namorico á presença do senhor maire.

De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsaes, quando um residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parabens. Leva uma boa esterqueira. Lethierry pedio explicações deste elogio. Em Aurigny ha uma moda. Apanha-se esterco de vacca e deita-se ás paredes. Depois de secco, cahe o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguem casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

De mais, em assumpto de amor ou de namoro, tinha elle uma boa philosophia rustica, uma sciencia de marinheiro apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina, chamava-se então vasquinha. Significa mais e menos que uma mulher.

Os rudes marinheiros do archipelago normando são intelligentes. Quasi todos sabem ler. Vê-se ao domingo rapazitos de oito annos, assentados em um grande rolo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer cousas chistosas. Foi um delles, o atrevido piloto Queripel quem atirou a Montgomery refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apostrophe: cabeça douda ferio a cabeça vasia. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arraes em Saint-Brelade, fez o trocadilho philosophico attribuido ao bispo Camus: Après la mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons. (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis ouçãos).


III

A VELHA LINGUA DO MAR

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gaulezes. Estas ilhas que se vão fazendo inglezas, conservaram-se muito tempo autocthones. O camponez de Serk falla a lingua de Luiz XIV.

Ha quarenta annos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma maritimo classico. Fazia crer que estavamos em plena marinha do seculo XVII. Um archeologo especialista poderia ir estudar alli a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquelle porta-voz que aterrava o almirante Hidde.

O vocabulario maritimo dos nossos paes, quasi inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Guernesey, em 1820. O navio que supporta o vento era bon boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se affeiçoa ao vento, por si mesmo, apezar das velas de prôa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça): entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se á capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima, era faire chapelle (tocar em vento); aguentar bem sobre a amarra, era faire teste; estar em confusão a bordo, era être en pantenne; ter o vento nas vellas era porter-plain, (levar em cheio).

Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje: louvoyer (bolinar), dizia-se: leauvoyer, diz-se: naviger (navegar), dizia-se nager, diz-se: virer vent devant (virar por d'avante), dizia-se: vidonner vent devant, diz-se: aller de l'avant (seguir avante), dizia-se: tailler de l'avant, diz-se: tirer d'accord (allar á uma), dizia-se: haller d'accord, diz-se: déraper, (arrancar o ferro), dizia-se: déplanter, diz-se: embraquer (tezar), dizia-se: abraquer, diz-se: taquets (cunhos), dizia-se: billons, diz-se: burins (passadores), dizia-se; tappes, diz-se: balancines (amantilhos), dizia-se: valancines, diz-se: tribord (estibordo), dizia-se: stribordo, diz-se: les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se: les basbourdis.

Tourville escrevia a Hoequincourt: Nous avons singlé (singrámos). Em vez de la rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (tureos), boussoir: em vez de drosse (bossa) drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar) alonger; em vez de forte brise (vento fresco), survent; em vez de sout (paiol) fosse; em vez de jouail (cepo d'ancora) jas; tal era, no começo deste seculo, a lingua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo fallar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Emquanto no resto do mundo as velas faseyaient (pannejavam), barbeyaient nas ilhas de Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. Só alli se empregavam os dous modos gothicos de amarração, a valturre e a portugueza. Só alli se davam ordens destas: Tour-et-choque!—Bosse et Bitte!—Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne), e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia le canal de pouliot. O que era bout-d'alonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille d'âne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tozado do convez la tonture.

Foi com este idioma estravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é lingua morta. A giria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

Não menos se transformou a lingua dos signaes; e ha grande distancia entre as flamulas encarnada, branca, azul e amarella de Labourdonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, que, arvorados dous a dous, tres a tres, e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, setenta mil combinações, suprem tudo, e por assim dizer, preveem o imprevisto.


IV
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