II

IV

VULNERABILIDADE POR AMOR

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito delle era a admiravel qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrahir uma obrigação; era solemne: Dou a minha palavra de honra a Deos. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deos, e nada mais. Ia poucas vezes á igreja, e isso mesmo por cortezia. No mar, era supersticioso.

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que elle era pouco accessivel á contradicção. Não a tolerava, nem num homem, nem no occeano. Queria ser obedecido; tanto peor para o mar se resistia; tinha de luctar com elle. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se impinasse, visinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objecção, nem diante de uma tempestade. Não, para elle, era palavra que não existia, nem na bocca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Dahi vinha a sua pertinacia na vida e a sua intrepidez no occeano.

Era elle proprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e hervas era preciso, e gostava tanto de fazel-a como de comel-a.

Creatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabellos soltos, a Jean Bart, e, com chapéo redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temivel no mar, espadua de carregador, sem imprecações, quasi sem colera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, camponio que lêo a Encyclopedia, guernesiano que vio a revolução, ignorante, instruido, ermo de carolice, dado ás visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, logica de ventoinha, vontade de Christovão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quasi rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta annos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás mess Lethierry.

Mess Lethierry tinha dous amores: Durande e Deruchette.


LIVRO TERCEIRO

Durande e Deruchette.


I

GARRULICE E EFFLUVIOS

O corpo humano é talvez uma simples apparencia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma mascara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma sorpreza haveria se se podesse vel-o agachado e escondido debaixo da illusão que se chama carne. O erro commum é ver no ente exterior um ente real. Tal creaturinha, por exemplo, se podessemos vel-a como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-hia passaro.

Passaro com fórma de moça, que ha ahi de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Suppõe que é Deruchette. Deliciosa creatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle arveloa. Não se lhe veem as azas, mas ouve-se-lhe o gorgeio. Canta ás vezes. Na tagarellice, está abaixo do homem; no canto, está acima delle. Tem mysterios aquelle canto; uma virgem é o involucro de um anjo. Feita a mulher, desapparece o anjo; volta, porém, depois, trazendo uma alma de criança á mãe. Esperando a vida, aquella que hade ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se ao vel-a: que boa que ella é em não bater as azes para ir-se embora!

A meiga e familiar creatura acommoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sahe, acerca-se, afasta-se, alisa as pennas ou pentea os cabellos, faz toda a especie de rumores delicados, murmura um não sei que de inneffavel aos teus ouvidos. Quando ella interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorgeia. Tagarella-se com ella. A tagarellice serve para descançar de fallar. Ha uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vel-a tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisivel, ella, que poderia, creio eu, ser impalpavel. Neste mundo o lindo, é o necessario. Ha mui poucas funcções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exhalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das cousas sombrias unia transudação de luz, ser o doirado do destino, a harmonia, a gentilesa, a graça, é favorecer-te. A belleza basta ser bella para fazer bem. Ha creatura que tem comsigo a magia de fascinar tudo quanto a rodea; ás vezes nem ella mesma o sabe, e é quando o prestigio é mais poderoso; a sua presença illumina, o seu contacto aquece; se ella passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplal-a é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenisar o lar domestico; de todos os poros sahe-lhe um paraiso; é um extase que ella distribue aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé delles. Ter um sorriso que,—ninguem sabe a razão,—diminue o peso da cadêa enorme arrastada em commum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Deruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o proprio sorriso. Ha alguma cousa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa physionomia; e outra mais parecida que a nossa physionomia, é o nosso sorriso. Deruchette risonha, era Deruchette.

É particularmente seductor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas sobretudo, teem uma belleza florida e candida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azues. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação ingleza amortece-os. Serão irresistiveis aquelles olhos limpidos no dia em que tiverem a profundesa do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez ingleza, felizmente. Deruchette não era parisiense, mas tambem não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre Port, mas mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em Saint-Sampson, dizia: Esta rapariga seduz a matar.

Deruchette tinha as mais lindas mãosinhas deste mundo, e pés iguaes ás mãos, quatro pésinhos de mosca, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua familia e riqueza: o trabalho della, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por sciencia a belleza, por espirito a innocencia, por coração a ignorancia; tinha a graciosa indolencia creoula, mesclada de travessura e de vivesa, a jovialidade traquinas da infancia com um pendor á melancolia, vestuarios um pouco insulares, elegantes, mas incorrectos, chapéos de flôres todo o anno, fronte ingenua, pescoço flexivel e tentador, cabellos castanhos, pelle branca com alguns toques arruivados no verão, bocca grande e sã, e nessa bocca o adoravel e perigoso explendor do sorriso. Eis o que era Deruchette.

Algumas vezes, á noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, á hora em que o crepusculo dá uma especie de terror as vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma cousa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um volcão, uma especie de hydra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrivel movimento de barbatanas e uma goela donde as chammas irrompiam. Era Durande.


II
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