VII

VIII

A CADEIRA GILD-HOLM-'UR

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt, não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde elle guardava a chalupa. A casa mal assombrada já não existe. A peninsula onde essa casa estava edificada cahio ao picarete dos demolidores, e foi conduzida, ás carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e commerciantes de granito. A peninsula fez-se caes, igreja e palacios na capital. Toda aquella crista de rochedos partio ha muito para Londres.

Aquelles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são verdadeiras cadêas de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. Ha-os de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal; cada rochedo é uma vertebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodillo bebendo agua.

Na extremidade da peninsula da casa mal assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Corne de la Bête. Essa rocha, especie de pyramide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pinaculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da peninsula, e a Corne de la Bête ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um isthmo de rochas praticaveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do mar, uma especie de cadeira natural cavada pelas aguas e polida pela chuva. Era perfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela belleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horisontes retinha, lá o observador curioso.

A cadeira offerecia-se logo aos olhos delle; era uma especie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar áquelle nicho era cousa facil; o mar que o talhara tinha feito em baixo uma especie de escada de pedras chatas, commodamente disposta; o abysmo tem destas attenções, desconfia sempre da sua cortezia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas de proposito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalal-a; era simples esquecer-se sentado naquella poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sahir, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gosava-se; sentia-se o afago da briza e do mar; ha em Cayenna um vespertilio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de azas; o vento é esse morcego invisivel; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do extase. Quando os olhos se enchem de um excesso de belleza e de luz, fechal-os é voluptuosidade. Acordava-se de subito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A agua cingia o rochedo.

Estava-se perdido.

Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

A maré cresce insensivelmente ao principio, depois com violencia. Chegando ás rochas, encolerisa-se, escuma. Nem sempre se póde nadar junto aos cachopos. Excellentes nadadores morreram affogados naquelle lugar.

Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, ás vezes, olhando para uma mulher.

Os antiquissimos habitantes de Guernesey chamavam outr'ora aquelle nicho talhado na rocha pela vaga a cadeira Gild-Holm-'Ur, ou Kidormur. Palavra celtica, dizem, não entendida pelos que sabem celtico, e entendida pelos que sabem francez Quem-dorme-morre. (Qui dort-meurt.) Tal é a traducção rustica.

Póde-se escolher entre esta traducção, Quem-dorme-morre, e a traducção dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da lingua celtica, Gild-Holm-'Ur quer dizer-Alta-dos-bandos-de-passaros.

Ha em Aurigny outra cadeira deste genero que se chama Cadeira do Frade, tambem aranjada pelo mar, e com uma saliensia de pedra ajustada tão a proposito que se póde dizer que o mar teve a complacencia de pôr um tamborete debaixo dos nossos pés.

Nas marés cheias, não se podia ver a cadeira Gild-Holm-'Ur. A agua cobria-a inteiramente.

A cadeira-Gild-Holm-'Ur era visinha da casa mal assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes, Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava sorprehender pela maré.


LIVRO SEGUNDO

Mess Lethierry


I

VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA

Mess Lethierry, o homem notavel de Saint-Sampson, era um marinheiro terrivel. Tinha navegado muito. Foi grumete, gageiro, timoneiro, contra-mestre, mestre de equipagem, piloto, arraes. Agora era armador. Ninguem conhecia o mar como elle. Era intrepido para salvar gente. Quando havia temporal mess Lethierry ia passear á praia, com os olhos no horisonte. Que é aquillo lá ao longe? é alguem que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o hiate de um lord, é um inglez, um francez, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, elle saltava dentro da lancha, chamava dous ou tres homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava elle só, desatava a amarra, travava do remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-n'o assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relampagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim ás vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas, á saraiva e ao vento, costeando os navios que sossobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava á noite para casa, e tecia um par de meias.

Passou esta vida cincoenta annos, desde os dez até os sessenta, emquanto foi moço. Aos sessenta annos, vio que já não podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquella bigorna trezentas libras; foi atacado repentinamente, do rheumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heroica á idade patriarchal. Já não era mais que um bonachão.

Mess Lethierry alcançou a um tempo o rheumatismo e a abastança. Estes dous productos do trabalho acompanham-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilisado. É a corôa da vida.

Diz-se então: vamos gozar agora.

Nas ilhas como Guernesey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar á roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar á roda do mundo. São duas especies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos ultimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

Fallámos nas viagens á roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos apparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquelle honrado homem teve uma vida de aventureiro. Em França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extrahio a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A agua lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia elle. Em summa toda a sua existencia, com excepção de dous ou tres annos, foi consagrada ao oceano; atirada á agua, dizia elle. Navegara nos grandes mares, no Atlantico e no Pacifico; mas preferia a Mancha. Aquelle é que é rude, exclamava elle com amor. Nasceu alli, alli queria morrer. Depois de ter feito duas ou tres vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mecheu dalli. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.

Mess Lethierry era guernesiano, isto é, normando, inglez, francez. Tinha essa patria quadrupla, immersa e como que afogada na sua grande patria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda a parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que elle abrisse de quando em quando um alfarrabio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos philosophos e poetas, e taramellar em vasconço um poucochinho de cada lingua.


II
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