IV

II

A ETERNA HISTORIA DA UTOPIA

Era uma prodigiosa novidade o apparecimento de um navio a vapor nas aguas da Mancha em 182... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horisonte do mar, sem attrahir os olhos de ninguem! Quando muito, algum observador especialista distingue pela côr da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Galles ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem:—Boa viagem! se chegam:—Welcome!

Não era tão grande a calma a respeito de taes invenções no primeiro quarto do nosso seculo, e estas machinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste archipelago puritano, onde a rainha de Inglaterra foi censurada por violar a Biblia[1] narcotisando-se para dar á luz, o navio a vapor teve como primeiro comprimento, o ser baptisado com este nome: Devil Boat—Navio-Diabo.

A esses bons pescadores de então, outr'ora catholicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquillo o inferno fluctuante. Um pregador da terra tratou da questão:—Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a agua que Deos separou?[2] Aquelle animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviathan? não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo cahos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao cahos.

Idéa louca, erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da academia das sciencias consultada por Napoleão no começo deste seculo, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson teem desculpa de se acharem, em materia scientifica, ao nivel dos geometras de Paris; e em materia religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais illustrada que um grande continente como a America. Em 1807 quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da machina de Wat mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dous francezes sómente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de New-York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de Agosto. Esta coincidencia deu origem a que o methodismo tomasse a palavra, e em todas as capellas os pregadores amaldiçoaram a machina, declarando que o numero dezesete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na America invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Genesis. Nisto consistia toda a differença.

Os sabios havião rejeitado o vapor como impossivel; os padres, a seu turno, rejeitavão-n'o como impio. A sciencia condemnava; a religião anathematisava. Fulton era uma variante de Lucifer. Os habitantes simplorios das costas e dos campos adheriam á reprovação pelo incommodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este:—a agua e o fogo são um divorcio. Este divorcio é ordenado por Deos. Não se deve desunir o que Deos unio, nem unir o que elle desunio. O ponto de vista do camponez era:—isto mette-me medo.

Para commetter, naquella época remota, a empreza de uma navegação a vapor entre Guernesey e S. Malo, nada menos era preciso que um homem como mess Lethierry. Só elle podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realiza-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu francez concebeu a idéa; o seu eu inglez executou-a.

Em que occasião? Digamo-lo.

[1] Genesis, cap. 3.°, v. 16: Parirás com dôr.

[2] Genesis, cap. 1.°, v. 4.


III

RANTAINE

Quarenta annos antes da época em que se passam os factos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux-Loups e a Tombe-Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ahi com a mulher e o filho, uma especie de burguez bandido, antigo escrevente de tabellião no Chatelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O appellido da familia era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma commoda de mogno, viam-se duas chicaras de porcelana pintada: em uma dellas lia-se em letras douradas o seguinte distico—lembrança de amizade; na outra—signal de estima. A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pae e a mãe pertenciam á burguezia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe pallida, quasi esfarrapada, dava machinalmente—educação—a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

O pae e a mãe presos em algum flagrante delicto, desappareceram na noite penal. A criança desappareceu tambem.

Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como elle, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, affeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o intelligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espaduas largas e possantes, e quadris de Hercules Farnese. Lethierry e elle tinham o mesmo ar e a mesma apparencia; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dous irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circumspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmonica, espivitava uma vela com uma balla, a vinte passos, dava um soco magnifico, recitava versos da Henriada, e adivinhava os sonhos. Sabia de cór os Tumulos de S. Diniz, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut—a quem os portuguezes chamam Camorim. Se se podesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso delle, ter-se-hia encontrado entre outras notas, algumas do genero desta:—em Lyão, n'uma das frestas da parede do calabouço de S. José, ha uma lima escondida. Fallava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de S. Luiz. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciaes differentes. Ninguem mais susceptivel em cousas de honra. Batia-se e matava.

A força servindo de envolucro á astucia, tal era Rantaine.

A belleza de um sôco applicado por elle, n'uma feira, sobre uma Cabeza de moro, conquistara-lhe outr'ora a sympathia de Lethierry.

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos teem um traje, o destino de Rantaine vestia á moda de arlequim. Tinha visto o mundo; tinha trabalhado muito. Era um circumnavegador. Teve innumeraveis officios. Foi cozinheiro em Madagascar, creador de passaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Gallapagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro livre no Haiti. Neste ultimo emprego, pronunciara no Grande Goave uma oração funebre de que os jornaes locaes conservaram este fragmento: ... «Adeus, pois, bella alma! na abobada azulada dos céos onde agora desferes o vôo, encontrarás sem duvida o bom padre Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe que, graças a dez annnos de esforços gloriosos, terminaste a igreja de Anse-à-Veau! Adeos! genio transcendente, maçon modelo!» A mascara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz catholico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apezar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi elle verdet. Naquella época a fumaça do seu realismo sahia-lhe pela cabeça fora, na forma de um immenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, apparecendo, desapparecendo e tornando a apparecer. Era um velhaco a gyrar como uma rodinha de fogo. Sabio o turco: em vez de guilhotinado dizia: neboissé. Fora escravo em Tripoli, na casa de um thaleb e ahi aprendera o turco á força de bengaladas; tinha por obrigação ir á noite á porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fieis o Alkorão, escripto em pranchas de madeira ou em omoplatas de camello. Provavelmente era renegado.

Era capaz de tudo e mais alguma cousa.

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: Em politica, só estimo as pessoas inaccessiveis ás influencias. Dizia: Sou pelos costumes. Dizia: É preciso repor a piramide na base. Era mais alegre e cordial que outra cousa. A forma da bocca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encrusilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Ahi é que se podia decifrar o segredo da physionomia delle. Assemelhavam-se as taes rugas a uma garra de abutre. O craneo era chato em cima e largo nas temporas. A orelha disforme e embrenhada de cabellos parecia dizer: não falles ao animal que está aqui neste antro.

Rantaine desappareceu um dia de Guernesey.

O socio de Lethierry raspou-se deixando vasia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro delle na caixa, é certo; mas havia tambem cincoenta mil francos de Lethierry.

Lethierry, ganhara uns cem mil francos em quarenta annos de industria e de probidade, no seu officio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou immediatamente de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a fallar do vapor. Lethierry teve a idéa de tentar a machina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o archipelago normando á França. Jogou tudo nessa idéa. Applicou-lhe os restos da fortuna. Seis mezes depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson vio estupefacta sahir daquelle porto um navio deitando fumo, e produzindo o effeito de um incendio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as aguas da Mancha.

Aquelle navio, alcunhado Galeola de Lethierry, pelo desdem e odios de todos, foi annunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.


IV
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