VI
GILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO
O salvamento da machina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evasão, e são conhecidas as paciencias da evasão. Tambem se conhecem as suas industrias. A industria chega ao milagre; a paciencia attinge á agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte S. Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou o chumbo na plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundio-o não se sabe com que fogo, vasou-o numa fôrma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa fôrma fez uma chave e com essa chave abrio uma fechadura que elle apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha estas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenck de um destroço e o Latude de uma machina.
O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.
Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ella a sua provisão de agua doce; mas a sede era inextinguivel e Gilliatt esvasiava o pichel quasi tão rapidamente como o enchia.
Um dia, o ultimo de Abril creio, ou o 1.° de Maio, tudo estava prompto. O assoalho da machina estava como que mettido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezeseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e á carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e, o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a machina, foi cortada em quadro e estava prompta para resvalar com a machina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudencia.
A maré estava baixa, o momento era bom.
Gilliatt, tinha conseguido desmontar a arvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstaculo e impedir, aquelle levantar de ancora. Tinha conseguido amarrar vertical mente a pesada peça na propria machina.
Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cançado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossivel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O folles começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hydraulica era de agua marinha, formaram-se depositos salinos nas junturas do apparelho e impediam-lhe o jogo.
Gilliatt foi á angra do Homem, passou revista á pança assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e a estibordo, levantou a ancora e remando voltou com a pança ás duas Douvres.
O intervallo das Douvres podia admittir a pança. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da Durande.
A manobra era comtudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessario entrar pela pôpa com o leme na prôa. Era necessario que o mastro e os apparelhos da pança ficassem áquem do casco do vapor, do lado da entrada.
Este aggravo na manobra, tornou a operação difficil ao proprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puchar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguio.
Em quinze ou vinte minutos a pança ficou collocada debaixo da Durande. Ficou quasi atravessada. Gilliatt por meio de duas ancoras, segurou a pança. A maior ficou collocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pança as duas caixas contendo as rodas desmontadas cujos cabos de guindar estavam promptos. As duas caixas fizeram lastro.
Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.
Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na prôa, muito na prôa talvez, o carregamento achava mais facilidade e o mastro ficava fóra da machina, de modo que nada impedia a sahida; era uma especie de concha, e nada mais estavel e solido no mar como uma concha.
De repente Gilliatt vio que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.
VII
SURGE UM PERIGO
Havia pouca brisa, mais vinha do oeste. É um máo costume de vento no equinoxio.
A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquelle corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a agua é boa e molle, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra tem pouco alento, emquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlantico, traz comsigo todo o sopro da immensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Róla largas ondas da extençáo illimitada e cospe grossas vagas no estreito.
A agua que se engolpha é sempre terrivel. A agua é como a multidão; uma multidão é um liquido; quando a quantidade que póde entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a agua convulsiona-se. Emquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, ha nas Douvres este assalto, duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando á força salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viéla. De modo que as Douvres ao menor vento do oeste, offerecem este espectaculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circumscripto, não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrivel. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembra-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temivel do oeste fica na extremidade opposta exactamente entre as duas Douvres.
Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pança ancorada.
Parecia inevitavel uma catastrophe, esta catastrophe imminente, tinha, embora pouco, o vento de que precisava.
Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlantico que teria atraz de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da America para chegar á Europa, tinha duas mil leguas de jacto. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiate do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstaculo, repellida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violencia ao escolho, penetraria, com todos os torções do obstaculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a Durande, e as estrangularia.
Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.
Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, previnir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introducção, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquella furia a ser tranquilla. Era preciso substituir ao obstaculo que irrita, o obstaculo que applaca.
Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de camello na montanha ou de macaco na floresta, utilisando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliencia de pedra, pulando na agua, nadando nos rodomoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martello na mão, desatou o cabo que prendia á pequena Douvre o pedaço da amurada de prôa da Durande, fez com as pontas da maroma uma especie de gonzos prendendo aquelle pedaço de madeira aos grandes pregos mettidos no granito, fez voltar naquelles gonzos aquella armadura de taboas semelhante ao alçapão de um dique, expôl-o em flanco, como se faz com um leme, á onda que impellia, e applicou essa extremidade á grande Douvre, emquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de prégos, postos do antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte n'uma couraça, e em menos de uma hora, levantou-se o obstaculo contra a maré, e a viella do escolho ficou fechada como por uma porta.
Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé era uma parede, foi, com auxilio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quasi que a cousa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.
Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que elle dirigia á vaga do mar, cada vez que esquivava um naufragio: Apanhei-te, inglez! Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o inglez.
Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividio o cabo nas duas ancoras para que ella podesse subir com a maré. Operação analoga a que os antigos maritimos chamavam: mouiller avec des embossures.
Em tudo isto Gilliatt não foi sorprehendido, o caso estava previsto; um homem do officio reconhecel-o-hia vendo as duas roldanas de guindar mettidas por traz da pança, nas quaes passavam dous pequenos cabos cujas pontas estavam presas ás argolas das duas ancoras.
Entretanto crescia a maré; já subira metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo placidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinára realisou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava epassava por cima. Fóra era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma cousa semelhante ás forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.