VI

VIII

IMPORTUNAQUE VOLUCRES

Gilliatt dormio bem. Mas sentio frio, e por isso acordou varias vezes. Tinha naturalmente os pés collocados no fundo do buraco, e a cabeça á borda. Não teve o cuidado de tirar daquelle leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor somno.

De quando em quando entreabria os olhos.

Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruido de canhão.

Tudo alli em roda apresentava o extraordinario da visão; Gilliatt tinha a chimera á roda de si. O meio espanto da noite contribuia para que elle se visse mergulhado no impossivel. Gilliatt dizia comsigo: Estou sonhando.

Depois tornava a dormir, e sonhando então, achava-se na casa delle, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Deruchette; estava no real. Emquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.

Com effeito, era um sonho aquillo.

Lá pelo meio da noite, ouvio-se um vasto rumor no céo. Gilliatt teve confusamente consciencia disso atravez do somno. Era provavel que fosse o vento.

De uma vez que elle acordou, com um estremecimento de frio, abrio as palpebras mais do que ate então. Havia largas nuvens no zenith; a lua fugia e uma grande estrella ia atraz della.

Gilliatt tinha o espirito cheio da diffusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

De madrugada estava gelado e dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquelle somno talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente. Gilliatt bocejou, espreguiçou-se, e levantou-se do buraco.

Dormiria tão bem que não comprehendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e elle exclamou: Almocemos!

O tempo estava calmo, o céo estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpára o horisonte, o sol levanta-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentio-se alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pelle de carneiro, atou tudo, e metteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

Depois fez a cama, isto é, poz fóra os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde puzera o cesto de provisões.

Não achou o cesto; como estava muito á beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

Isto annunciava uma intenção de luta.

Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e malicia para ir buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt comprehendeu isso.

É difficil, quando se vive em familiaridade com o mar não vêr no vento e nas rochas creaturas e personagens.

Só restava a Gilliatt, além do biscouto e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o naufrago morto de fome no rochedo Homem.

A pesca era impossivel. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com difficuldade escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lunch ouvio um estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas que cahia sobre uma das rochas baixas, batendo as azas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquella horda de bicos e unhas saqueava alguma cousa.

Essa cousa era o cesto de Gilliatt.

O cesto lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os passaros correram logo. Levaram no bico toda a especie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfisch.

Era a vez de entrarem tambem em luta os passaros. Faziam represalias. Gilliatt tomara-lhes a casa; elles tomavam-lhe a comida.


IX

O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que elle emprehendia estava acima da força humana, em apparencia ao menos. O successo era de tal modo inverosimil que a tentativa parecia louca.

As operações encaradas de perto mostram os seus impecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difficil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexoravel. A difficuldade que se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.

Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma forja.

Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam, urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente. Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.

Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.

Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhal-o das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo secco. Gilliatt, porém, tirou-as, porque o maçame podia ser-lhe util.

Recolheu igualmente a pequena ancora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar encalhara.

Achou no que fôra camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.

Uma celha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

O resto do carvão que havia na Durande foi levado para o armazem.

Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo, e a Durande alliviada. No casco só restava a machina.

O pedaço da amurada que ainda adheria ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentado embaixo por uma saliencia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazem. Parecia uma jangada aquelle pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.

Gilliatt profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas cousas que a onda tinha levado para sempre, Gillatt para achal-a daria os seus dous braços, se não precisasse tanto delles.

Na entrada do armazem, e fóra, viam-se dous montes de rebutalho, um de ferro, para fundir, outro de páo, para queimar.

Gilliatt trabalhava desde madrugada. Fóra do tempo do somno, não descançava nunca.

Os corvos marinhos, voando aqui e alli, contemplavam-n'o a trabalhar.


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