XI

XIII

O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA

Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.

Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n'uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.

Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.

Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.


LIVRO QUARTO

O bug-pipe.


I

PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Deruchette. Conheci-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrella da manhã.

Na época em que Deruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre Port au Valle e fez-lhe a sorpreza de traçar na neve o nome delle, tinha 16 annos. Exactamente na vespera mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

—Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nome Gilliatt, escripto por aquella menina, cahio em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? nem mesmo elle poderia dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na ultima extremidade fallava ás mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponeza. Quando se achava só em um caminho e ansiava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou mettia-se em uma mouta e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naquelles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortunios: «Estou muito massada, cahiram-me uns choviscos no chapéo, esta côr é muito sujeita a ficar manchada.»

Tendo encontrado tempos depois entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toilette, pregou-a na parede como lembrança desta apparição. Nas noites de estio escondia-se atraz das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponezas banharem-se no mar. Um dia, atravez de uma cerca, vio a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha cabido. Provavelmente, Gilliatt era virgem.

Naquella manhã de Natal em que Deruchette escrevera rindo o nome delle, Gilliatt voltou para casa não sabendo já porque motivo tinha sabido. Não dormio de noite. Pensou em mil cousas;—que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;—que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma cousa;—que tinha visto erva pinheiro em flôr, cousa rara naquella estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre elle e a velha que morrera em casa; disse comsigo que devia ser sua mãe e pensou nella com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Rev. Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre Port, e que a parochia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria vigesimo setimo dia da lua, e que por consequencia a maré enchente seria ás 3 horas e 21 minutos, a média ás 7 horas e 15 minutos, a vasante ás 9 horas e 36 minutos. Recordou, até nas menores particularidades, o vestuario de highlander que lhe vendera o bug-pipe (especie de sanfona), bonet enfeitado com um cardo a claymore, a casaca de ábas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escosseza, os dous cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dous cairgorums, e os joelhos nús do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquillo tornou-se espectro, perseguio-o, deu-lhe febre até que elle adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto, e o seu primeiro pensamento foi Deruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escossez. Sonhou tambem com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Deruchette e teve contra ella uma violenta colera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe e entrou a chorar.

Projectou ir passar uns tres mezes em Chausey ou em Minquirs, mas não partio.

Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre Port au Valle.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra, e que todos os viandantes deviam olhar para elle.


II
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