IV

VI

LETHIERRY ENTRA NA GLORIA

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que elle seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Ha uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degráo é o nome simplesmente, Pedro, supponhamos; depois, visinho Pedro; terceiro degráo, pai Pedro; quarto degráo, senhor (sieur) Pedro; quinto degráo, mess Pedro; ultimo degráo, gentleman (monsieur) Pedro.

Esta escada, que sahe da terra, interna-se pelo céo acima. Entra nella toda a hierarchia ingleza. Eis os degráos mais luminosos: acima de senhor (gentleman) ha esq., (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalicio) depois o baronet (sir hereditario), depois o lord, laird na Escocia, depois o barão, depois o visconde, depois o conde, (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marquez, depois o duque, depois o par de Inglaterra, depois o principe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo á burguesia, da burguesia ao baronato, do baronato ao pariato, do pariato a realesa.

Graças aos seus triumphos, ao vapor, ao Navio-Diabo, mess Lethierry já era alguem. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen, e em Saint-Malo, mas ia amortisando a divida todos os annos.

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novasinha, entre o mar e o jardim; no angulo estava este nome: Bravées. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notavel por duas fileiras de janellas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flôres, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

As fachadas pareciam feitas para os dous moradores: mess Lethierry e miss Deruchette.

Era popular a casa de Lethierry, porque elle proprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem delle, parte dos homens que elle salvara de perigos imminentes, em grande parte do bom exito da Galeota, e tambem por ter dado ao porto de Saint-Sampson, o privilegio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil-Boat era um bom negocio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. Daqui é que eu fui lançado ao mar, dizia elle. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de proprietario e contribuinte fazia delle o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degráos, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quasi gentleman, e quem sabe mesmo se não passaria dahi? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanack de Guernesey, no capitulo Gentry and Nobility esta inscripção inaudita e soberba: Lethierry, esq.

Mess Lethierry, porém, desdenhava ou antes ignorava o que era a vaidade das cousas. Sentia-se util, era a satisfação delle; ser popular commovia-o menos que ser necessario. Já o dissemos, tinha dous amores, e por consequencia, duas ambições: Durande e Deruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande, era Durande navegando.


VII

O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA

Depois de crear o vapor, Lethierry baptisou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante se não este nome. Seja-nos licito igualmente, qualquer que seja o uso typographico, escrever Durande sem ser em gripho, conformando-nos nisto ao pensamento de mess Lethierry para quem Durande era quasi uma pessoa.

Durande e Deruchette é o mesmo nome. Deruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e augmentativos. Parece que ha muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com differentes nomes, não é rara, Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provavel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correcta? Isso é lá com os bolandistas. Correcta ou não, esta santa tem muitas igrejas.

Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquella santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa Charenteza, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquelle nome ás duas cousas que elle amava; Durande á Galeota, Deruchette á menina.

Lethierry era pae de uma e tio da outra.

Deruchette era filha de um irmão que elle teve. Morreram-lhe os paes. Lethierry adoptou a criança, e substituio o pae e a mãe.

Deruchette não era sómente sobrinha, era tambem afilhada de Lethierry. Foi elle quem a levou á pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Deruchette.

Deruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre Port. Estava inscripta no registro da parochia.

Emquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguem se importou com o nome Deruchette; mas quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman, Deruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a mess Lethierry:

—Porque lhe dá esse nome?

—É um nome assim, respondia elle. Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quiz.

Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a mess Lethierry:

—Daqui em diante chamarei Nancy á sua filha.

—Porque não lhe chamará Lons-le-Saulnier? disse elle.

A bella senhora não desistio, e no dia seguinte disse-lhe:

—Decididamente não queremos que ella se chame Deruchette. Achei um lindo nome: Marianne.

—Lindo nome realmente, disse mess Lethierry, mas composto de dous animaes bem ruins, um mari (marido) e um ane (asno).

Lethierry manteve o nome de Deruchette.

Enganar-se-hia aquelle que concluisse pelas ultimas palavras de Lethierry que elle não queria casar a sobrinha. Queria casa-la, de certo, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera, muito trabalhador, de maneira que Deruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Deruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe occupações elegantes, mestre de musica, piano, bibliotheca e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

Deruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto a fascinação. Educou-a mais para ser flôr do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros ha de comprehender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que mess Lethierry comprehendia perfeitamente. A machina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Deruchette.


VIII
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