
The Project Gutenberg EBook of Os Trabalhadores do Mar, by Victor Hugo
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Title: Os Trabalhadores do Mar
Author: Victor Hugo
Translator: Machado de Assis
Release Date: September 13, 2018 [EBook #57895]
Language: Portuguese
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Produced by Laura Natal Rodriguez and Marc D'Hooghe at
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Biblioteca Brasiliana Guita y José Mindlin)
TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
Indice
PRIMEIRA PARTE
O Sr. Clubin.
Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha terra normanda onde vive o nobre e pequeno povo do mar, á ilha de Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu provavel tumulo.
V. H.
A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem. Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisa crer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahi a charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahe de todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob a fórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o ananke das leis, o ananke das cousas. Na Notre Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseraveis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro.
A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.
Hauteville-House, março de 1866.
LIVRO PRIMEIRO
Elementos de uma má reputação
I
PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA
O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio neve naquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel: a neve é um acontecimento.
Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre Port au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meia noite até o romper do dia.
Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda occasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos á capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estrada comprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tres viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito annos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado de Saint-Sampson.
Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia as roupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar da festa, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solas taixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos dous crepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nella.
De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de uma horta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a attenção do homem.
Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgou vêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltou pela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentio necessidade alguma de appressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhos baixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina. Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escripta por ella: Gilliatt.
Era este o nome delle.
Chamava-se Gilliatt.
Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.